Canhoto - Celeiro Cultural

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domingo, 6 de junho de 2021

Canhoto



Por André Santana


Canhoto era o filho caçula do feliz casal Destro e Destrina. Quando nasceu, encheu de alegria os pais e o irmão, Destro Junior. Era um bebê saudável e serelepe, que se tornou uma jovem criança adorável. Certo dia, ao brincar com seu carrinho com a mão esquerda, o pai ralhou:


- Segure com a mão certa! Filho meu não usa a mão esquerda! - bronqueou, lhe dando um tapa na mãozinha.


Ao ir para a escola, Canhoto se tornou um aluno aplicado, porém com alguma dificuldade. Aprender a escrever não foi nada fácil. Porém, ele se esforçou tanto que acabou conseguindo se virar, embora sua caligrafia tenha sido muito criticada pela professora.


Aos 13 anos, enquanto penava para escrever uma redação, Canhoto, naturalmente, segurou o lápis com a mão esquerda. E, de repente, tudo fez sentido. O texto saiu fácil, a caligrafia logo melhorou, e ele se sentiu mais criativo do que nunca. Mas ele logo percebeu que não poderia continuar fazendo aquilo. Afinal, ele nasceu num mundo destro, foi criado num mundo destro e teria que enfrentar muitos desafios caso quisesse mudar a ordem das coisas. As carteiras da escola eram feitas para destros, as tesouras e ferramentas eram feitas para destros, até mesmo os instrumentos musicais eram feitos para destros. 


Um dia, até perguntou à mãe o que aconteceria se alguém demonstrasse habilidade com a mão esquerda.


- Não pode. Está escrito na Bíblia que é uma abominação. - respondeu dona Destrina, muito religiosa.


Canhoto leu no jornal que existem lugares onde as pessoas que são pegas escrevendo com a mão esquerda são condenadas à morte. Ele não entendeu porque isso era um problema, mas compreendeu que se tratava de uma falha grave. Ninguém entenderia e ninguém o apoiaria se ele começasse a escrever com a mão esquerda. Por isso, decidiu que não mais usaria esta sua habilidade. 


Um dia, um novo aluno chegou à escola. Ele avisou a professora que precisava de uma nova carteira, pois escrevia com a mão esquerda. Os demais alunos ficaram chocados. A professora ficou sem graça, mas resolveu que tinha que ajudá-lo. Ela, então, colocou o novo aluno em uma carteira maior, para que ele ficasse mais confortável.


Logo, todo mundo ficou sabendo da existência de um aluno que escrevia com a mão esquerda na escola. Alguns pais de alunos ficaram revoltados e pediram sua expulsão. Mas a escola argumentou que, ali, esta habilidade não era um crime, e eles nada poderiam fazer. Assim, o menino seguiu na escola, mas sofreu com a indiferença de todos e, constantemente, era alvo de piadinhas maldosas.


Canhoto ficou triste com a maneira com que todos tratavam o novo aluno. E decidiu se aproximar dele. Ficaram amigos. Tão amigos que, um dia, Canhoto se abriu com ele:


- Eu sou igual a você. Mas escondo de todos, porque não entenderiam.


O amigo acolheu Canhoto. Disse que todos estavam errados, pois não era certo ir contra a natureza deles. Afinal, eles nasceram assim, e esta habilidade diferente não fazia mal a ninguém. Por isso, não fazia sentido eles serem julgados por isso.


Depois disso, Canhoto ficou muito mais à vontade com sua habilidade. Voltou a escrever com a mão esquerda, sozinho em seu quarto, e criou belos textos. Tornou-se um dos grandes destaques das aulas de redação. Ganhou concursos e tudo!


Até que, um dia, seu pai o surpreendeu no quarto escrevendo com a mão esquerda. Seu Destro ficou indignado, disse que não ia aceitar aquilo acontecendo debaixo do seu nariz. E expulsou Canhoto de casa. Dona Destrina, desesperada, disse que nada poderia fazer, e entregou uma Bíblia ao filho. Destro Junior humilhou o irmão, e disse que tinha vergonha, já que todos iam achar que ele também escrevia com a mão esquerda.


A família do amigo de Canhoto o acolheu em casa. E disse a ele que, naquela casa, todos tinham a liberdade para serem quem são. Canhoto, então, passou a viver sem culpas. E aquela sensação era muito, muito boa. Pela primeira vez em sua vida, Canhoto sentiu que não estava fingindo ser quem não era. Ele era daquele jeito e pronto!


Não foi fácil. Canhoto ainda foi muito julgado, sofreu muitas humilhações, violência e intolerância. Mas também conheceu outras pessoas como ele. E sentiu que sua missão era encorajá-los a não ter vergonha de ser quem são. Canhoto tornou-se um líder numa luta pelos direitos às pessoas hábeis com a mão esquerda. Uma luta que obteve grandes conquistas. Mas que ainda tem muito mais a avançar. Afinal, ainda tem gente que teima em pregar que escrever com a mão esquerda não é natural. Pois é…


André Santana é jornalista e escritor. Formado em Comunicação Social, pós-graduado em Marketing e Gestão Cultural, atualmente cursando graduação em Letras. Escreve sobre cultura para sites e presta assessoria de comunicação para projetos culturais. É autor do livro "Tele-Visão: A Televisão Brasileira em 10 Anos" e organizador da antologia "Ilhados".

6 comentários:

  1. A ignorância leva as pessoas cometeram erros terríveis....parabéns pelo texto. Maria Ivanilda

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  2. Que forma mais linda e lúdica de falar sobre as diferenças! Me encontrei no seu texto, nas situações, me emocionei. Lindo demais André! Parabéns!
    Thiago P. Santos

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  3. Muito bom seu texto, André! Nos faz refletir sobre o quanto ainda precisamos aprender para construir um mundo melhor, onde todos possam conviver em harmonia, respeitando o direito de cada um!
    Dolores

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  4. Demais, André! Quantos de nós já escondemos as nossas habilidades em função de uma sociedade opressora. Parabéns!

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