A vertigem da sensatez - Celeiro Cultural

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domingo, 13 de junho de 2021

A vertigem da sensatez

Por Paulo Jordão


Dentro da complexidade das coisas reside o simples, onde a solidez de um pensamento navega em um mar de incertezas. Ver a involução no meio evoluído, o atraso capitaneando o futuro e sendo semelhante ao oposto, não contraditório ao congruente, é vislumbrar a vertigem da sensatez.


O veneno é insípido e inodoro. O invisível é tão óbvio que salta aos olhos. Tão longe e tão perto faz ser verdade a mentira, é como tentar tornar presente um futuro distante, com um passado próximo. Déjà vu jamais visto. 


Emaranhado em uma linha reta, o ritmo perdeu o passo. O obstáculo é um gigante microscópico atravessado em uma via plana. Como se o vento tirasse o ar e a luz afastasse o dia, o absurdo raptou o lógico.


Mobilizam a inércia, montam um cativeiro sem grades, caminham em uma esteira curta numa sala sem janelas. Do outro lado, os atônitos, análogo a uma abdução, têm olhos que não veem, ouvidos que não ouvem, bocas que não falam, mas as peles coloridas sentem e sofrem. Não sabem do término e nem se lembram do começo.


Faz todo o sentido pensar que nada faz sentido e o real agora é irreal. Entretanto, nem tudo é tão efêmero a ponto de ser finito. Há, mesmo que ínfima, uma matéria perdurando no improvável vácuo, o suficiente para ser existência. Nessa mínima fonte brota a força do fraco.


É convulsivo, pois o mórbido degrada e o contrário ansia, aversa, expele. O movimento aspira da vontade extraída da matéria dos sonhos e, quando colidem, o planeta gira e o tempo retoma curso. 


Clarifica o obscuro. Luz nas trevas, ecos no silêncio, leveza fazendo contrapeso, há sim um pouco de tudo nesse monte de nada. O calor do frio ressuscita mortos, germina sementes queimadas, quebra concretos, rasga paisagens, reescreve a vida. A resistência do corpo, da alma, da quimera, do impossível fecunda a terra com sonhos e amor, o resto é luta.


O amor no ódio, a verdade na ilusão,  a coexistência na existência, o plural no singular, a vida na morte, a cura na dor. 


É muita gente para o eu se ver no outro?


Tão velho que é novo, tão ultrapassado que ainda não superado, tão cafona que virou moda, tão didático que não educa. Tão perto e tão longe...


Confuso, mas lúcido. E diante de tanta profundidade, a percepção é que se está apenas arranhando a superfície.


Paulo Jordão é ator, produtor cultural e professor de teatro.  Formado em teatro pelo Conservatório de Tatuí, atua profissionalmente na área desde 1992, em espetáculos, cinema e TV. Coleciona prêmios e indicações em festivais de teatro, Prêmio RUMOS Itaú Cultural pela adaptação para audiolivro “O Infiltrado”, de Roberto Causo, prêmio Destaque Cultural de Ilha Solteira pelos projetos da Cia. Melissa & Paulo em Ilha Solteira. Atualmente é produtor da Cia Melissa & Paulo, diretor executivo da Fundação Cultural de Ilha Solteira e coordena, junto com Melissa Nascimento o Projeto Culturando do Departamento de Cultura.

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