O saber nasce na alma - Celeiro Cultural

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domingo, 2 de maio de 2021

O saber nasce na alma



Por Maria Marlene de Souza (Marimar)


Numa manhã ensolarada de outubro, nasce mais uma Maria com um pé na senzala e o outro na tribo indígena Truká do interior de Pernambuco, para ser mais precisa, em Petrolina.


O tataravô dessa menina veio de Portugal para colonizar, assim eles falavam, na realidade eram exilados do seu país por motivos políticos. O Brasil era uma forma de recomeçar a vida, pegavam um pedaço de terra, usavam os índios como escravos, e como dizia meu avô, sua bisavó foi pega a laço e domesticada, eram tratados como animais selvagens. Foi assim que deu início a história de Maria.


Já seu avô materno nasceu numa senzala, não mais como escravo, tinha recebido o direito de ser livre por lei, sua mãe ainda pertencia ao fazendeiro, por isso morava com ela e tornou-se seu capataz. O fazendeiro veio da Itália e tinha muitas posses e uma filha lindíssima. José, avô de Maria, era revoltado com a forma que era tratado. Um dia o bando de Lampião passou na fazenda e ele fugiu com eles, mas alguns anos depois voltou e roubou a filha do fazendeiro de quinze anos, fugindo para uma cidadezinha do interior do Ceará.


O tempo passa, e um homem de Petrolina se casa com uma mulher do Ceará, dando a Maria uma árvore genealógica com uma mistura incrível, com descendentes portugueses, italianos, africanos indígenas, um verdadeiro Brasil corria em suas veias.


Seus pais eram analfabetos, mas sempre lutaram para que as filhas tivessem um estudo. Eles não sabiam ler, mas decoravam as histórias que ouviam nos cordéis cantados nas feiras do nordeste e contavam todas as noites a luz de lamparina ao lado da única cama onde dormiam as meninas. Mesmo com todas as dificuldades que passavam, resolveram fazer o curso noturno chamado Mobral. Maria aprendeu a escrever junto com sua mãe, tinha algumas dificuldades na interpretação e leitura, foi muito rotulada na escola, seu desejo de ler, entender o que lia e escrever, levou-a desenvolvesse um método para superar esse problema, hoje sabemos que tinha um grau leve de dislexia, além de ser hiperativa.


Mesmo muitos não acreditando no seu potencial, terminou os estudos, foi lecionar, buscou especializações e virou uma escritora. Superou o que parecia impossível, venceu batalhas e guerras travadas por conta de sua prepotência em dizer:


“Sou Maria, 

Feita como as ondas do mar, 

Dou voltas, bato firme, posso até enfraquecer,

Mas igual a capacidade das ondas em contornar obstáculos,

Faço do meu passado um novo legado deixando a minha marca registrada, 

Sou Maria, forte como o mar, sou Marimar”.


Maria Marlene de Souza é professora aposentada e escritora. Formada em Pedagogia, Especialista em Gestão Pública pela UFSCAR, pós graduada em psicopedagogia pela Faculdade Integrada de Santa fé do Sul/SP, Psicologia em Educação e Neuropedagogia na educação pela Faculdade de Jales /SP.  Trabalhou como Professora na rede municipal e estadual de Ilha Solteira, foi Coordenadora, Vice Diretora, Diretora e supervisora de Ensino nas escolas municipais de Ilha Solteira. Lançou dois livros de poesias "Viver é Poetizar" e  "Viver é Poetizar - Cinquenta anos de memórias". É autora da coleção infantil  Bichos Espertos, contendo cinco livros," A gata Malu e seu segredo perigoso", "Aslan o valentão da escola", "Na casa do Coeleno", "O Celeiro do barulho", "O sonho dos Bichos".

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