O Capoeira - Celeiro Cultural

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terça-feira, 4 de maio de 2021

O Capoeira

Caio Augusto da Costa


Ele é acordado aos berros pelo capataz da fazenda assim como todos os outros que ali estavam. 


-Acorda seus imundos! Disse o Capataz Febrônio. 


Eles rapidamente levantam e vão trabalhar, embora ele fosse jovem, já trabalhava arduamente, assim como os outros. 


Naquele fim de tarde viu e ouviu um movimento estranho dentro da senzala, sua mãe conversando escondido com outros negros, ele de longe tentava entender, mas não conseguia ouvir direto. 


Mais tarde, naquela madrugada, ele é acordado por sua mãe, olha para o lado e vê um dos guardas da fazenda encarregado de cuidar da senzala de madrugada morto no chão com um corte no pescoço, ele sem entender nada é puxado pelo braço por sua mãe e começa a correr pelo mato, logo ouviram os latidos dos cachorros. No grupo de fuga estavam mais 27 pessoas entre homens mulheres e crianças. 


Cada vez mais o latido dos cachorros se aproximava, eu conseguia ouvir de longe eles se aproximando, o rosto da minha mãe cada vez mais arrependido e com medo, todos sabiam que a consequência daquilo poderia ser a morte, corrermos uma noite toda sem parar, quando o dia estava nascendo não tivemos mais força para correr e fomos pegos. 


Febrônio expressava uma cara de desprezo e, com alegria, torturou e matou 4 de nós, inclusive minha mãe, acusando-os de serem cabeça daquela fuga. Suas mortes eram para ficar de exemplo para os outros. Naquele momento que o tiro da arma de Febrônio atravessou o peito de minha mãe, me senti estranho, tudo ficou escuro e eu senti que algo despertou dentro de mim, algo que nunca tinha sentido antes. Eles me pegaram, assim como os outros, e nos levaram de volta para a fazenda. Como punição, todos apanharam, inclusive eu. Ficamos sem comida por dias, quase morremos com a punição. 


Salto temporal. Eu já tenho 16 anos. Conheço a Venusa, a negra mais linda que vi na vida, pele linda, lisa e reluzente. Ela trabalhava na casa grande e eu no campo, nossos olhares se cruzaram uma vez e foi o suficiente para que a gente se apaixonasse. 


Começamos a nos ver escondido, logo notei marcas de violência nela, Venusa me disse que o Febrônio e outros capatazes abusavam dela frequentemente. Chorando muito me abraçou, aquilo me doeu e algo dentro de mim ia ficando maior, tinha algo parecido com vozes, mas era confuso e baixo um som muito baixo.


Certa vez eu e Venusa estávamos em uma cachoeira próxima da fazenda, fugimos escondidos para nos encontrar. Estava tudo tão bem, até aparecer três capatazes e nos descobrir. Como eles a faziam de objeto sexual, ficaram irados quando a viram comigo. Eles a estupraram na minha frente e tentaram me estuprar também. Lembro deles tentando me segurar, eu apavorado, tudo ficou escuro eu só me lembro de acordar ao lado dos três capatazes mortos e minha amada Venusa que também morreu naquele dia. 


Não sei o que aconteceu, como tudo aquilo aconteceu, eu senti medo e fugi, fui viver no meio da mata fechada. Lembrei que já ouvira falar sobre um lugar onde os pretos que fugiam conseguiram segurança, uma vila de negros onde os homens brancos não podiam chegar, não sabiam onde ela se localizava e eu também não sabia onde era, passei alguns meses comendo as frutas que conseguia encontrar e animais que conseguia caçar.


Certa noite acordo, vejo uma serpente se aproximando, enorme, seus olhos tinham fogo, e ao lado da serpente, uma onça toda preta, com os olhos muito pretos, os dois animais estavam na minha frente me encarando. 


Naquele momento fiquei com medo, mas logo notei que eles não queriam me atacar, pareciam que viram algo dentro de mim. Naquele momento senti de novo aquelas vozes dentro de mim, elas gritavam me mandando lutar, rindo alto e dizendo que eu era um otário por não lutar e fugir. 


Nesse momento a cobra se enrola em mim começa a me apertar, a onça negra, de olhos pretos, me encarava esturrando de raiva, meu fôlego foi se perdendo, minha vista ficando escura e desmaiei. Lembro de flashs sobre o que aconteceu aquela noite, me lembro de estar ajoelhado em frente àqueles dois animais e eles se curvando diante de mim. Quando acordei estava cercado por indígenas da região. Fui levado a uma tribo enorme com soldados e muitas ocas.


Uma criança se aproximou de mim e deixou algumas frutas, eu olhei agradecido, ela olhou em meus olhos e saiu correndo, logo depois o cacique daquela tribo se aproximou. Vi seus olhos e senti a mesma presença que senti ao olhar aquela cobra, ele pediu que me soltasse.


Fui inserido na cultura daquele povo, aprendi seus costumes e aos poucos fui me tornando um guerreiro, aprendendo técnicas de lutas. Nos treinos me destacava, tinha algo dentro de mim que ficava mais forte, as vozes já não eram tão estranhas, me sentia familiarizado com elas, consegui um lugar de respeito na tribo. O cacique que havia me libertado se tornara meu amigo e mentor, eu o enxergava com um pai.


Uma vez, em uma caçada, eu e mais dois indígenas Kurupã e Kataui, filhos de sangue do cacique, fomos emboscados por alguns capatazes e negros subordinados de uma fazenda, os cachorros nos cercaram e logo eles apareceram montados em cavalo empunhando armas e chicote, nós tentamos lutar mais Kataui foi atingido na barriga e começou a sangrar muito, Kurupã até tentou salvar seu irmão, mas fomos pegos e imobilizados pelos capatazes. 


Os povos indígenas sempre estiveram em guerra com os brancos e preferiam a morte do que trabalhar para eles, então provavelmente eles seriam mortos ali. Quando vi o capataz apontando sua arma para Kurupã, senti um grito saindo da minha garganta como se libertassem algo dentro de mim. Pela primeira vez aceitei e deixei que aquilo tomasse conta de mim, me lembro de tudo ficar vermelho e rapidamente quando retomei a consciência, os cinco capatazes estavam mortos, um sem os dois braços, outro com sua caixa toráxica aberta, outro com a face totalmente dilacerada, e os outros dois com cortes enormes em seus pescoços. Parecia que eles tinham sido atacados por algum animal, quando retomei a consciência totalmente, Kurupã me olhava com medo,  mas com admiração, não acreditava no que seus olhos viam, uma única pessoa matar cinco homens armados a cavalo. Vários indígenas chegaram correndo para nos salvar, haviam escutado o barulho da luta. Não foi possível salvar Kataui. 


Kurupã contou para seu pai, que naquele momento eu fiquei diferente meus olhos ficaram negros, apareceram marcas em meu corpo, como marcas de um animal, meu grito parecia um grito alto de um animal, me desamarrei das cordas com as quais me prenderam os capatazes e me movia pelas sombras, era muito rápido, matando todos a volta, uma voz demoníaca saia de minha garganta, essa voz parecia feliz, dizendo, estou livre, em um tom psicótico e extremamente ameaçador. O Cacique disse que sabia do que se tratava e contou a história. 


A HISTÓRIA DOS HUMANOS 


O Cacique disse que há quase 200 anos atrás tínhamos várias tribos, várias línguas faladas e povos diferentes, ideias e religiões, que os indígenas tinham em suas tribos, que lhes dá poder. O Cacique descreveu como o poder da natureza, que seu deus Tupã deixou na tribo um ser na forma de uma criança para os proteger de ataque de outras tribos. O que nós não sabíamos é que a outra tribo que ele falava era o homem branco. Teve relato que de alguma forma todas as outras tribos tiveram experiências parecidas, na época acharam que os deuses estavam rindo da gente indígena e querendo os ver matando uns aos outros.


Ninguém entendia como um deus tão benevolente poderia aprovar coisas assim. O nome da criança enviada era Tauê. Desde criança se mostrou habilidoso com as árvores, o menino parecia que voava, só vivia no alto, fazia coisas que ninguém mais fazia, não demorou muito para se tornar linha de frente e encarregado dos soldados, guerreiros. 


Na época existia várias tribos e guerras entre a gente. Até que um dia grandes serpentes de madeiras chegaram pelo mar trazendo muitos brancos que soltavam fogo pelas mãos, regido por um tal de Bispo, com seu poder de fogo muito maior, foi destruindo as outras tribos e matando todos que não aceitassem seguir o Rei Jesus V, o rei do império dos brancos.


Foram destruindo tribo por tribo, até que chegaram na gente, disse o Cacique, continuando a narrativa. Tauê estava preparado e sabia o que tinha que fazer. todos nós nos preparamos, fizemos uma emboscada pela copa das árvores, usamos zarabatanas com veneno de coral e assim, depois de muita luta conseguimos expulsá-los. Mas o preço disso foi enorme.


Tauê acabara aquele dia morto, ele sacrificou sua vida para salvar duas jovens que foram alvejadas, Tauê quando viu aquilo se pôs na frente da bala, salvando-as, dando sua vida por isso. 


Vários indígenas fugindo dos homens brancos acabavam por passar por aqui, e quase todos eles disseram sobre um herói de sua tribo que possuía poderes, que eram alimentados pelo poder dos deuses, mas que vieram a morrer ou ser capturados pelos brancos.


Certa vez um indígena disse que o nome desses guerreiros diferentes eram Salvadores, que a tribo dele acreditava que a única forma de se salvar dos brancos era unindo todos eles em um único exército, mas que a ganância e guerras os enfraqueceu e deu a chance que os brancos precisavam, e ele realmente tinha razão, finalizou o Cacique.


 PARTE DESCOBERTA 


Então o cacique contou tudo isso para mim, me explicou que posso ser uma criança assim, trazida pelos deuses à Terra, mas que mesmo que fosse muito forte minha pele, não resistia à bala, então, por isso, não tinha poder para resgatar todos sozinho. Que a inteligência poderia me ajudar, que eu deveria ser muito sagaz e saber a forma certa de usar os poderes que eu tinha. naquele momento. Pensei, como??? Se eu sempre apago quando ele se manifesta? 


Naquele momento comecei a perceber e entender as malditas vozes que sempre estavam falando comigo. Uma voz interior maior sobre todas as outras, disse: aí seu muleque você ia morrer, eu podia ter deixado. Até agora não me agradeceu por salvar sua vida e desses índios. É isso mesmo, agora você me ouve e entende né? Sabe quem eu sou? Sou aquele que matou os capatazes, eu sou o animal, sabe o que aconteceu aquele dia? Depois dos capatazes estuprarem Venusa, vieram em cima de você, que fraco, desmaiou por medo. Então eu tomei conta, nunca me senti tão livre, o gosto de sangue, o cheiro, o medo nos olhos deles... nossa, fiquei excitado só de lembrar. 


Eu perguntei: - o que você é? 


A Voz interior respondeu: - sou o seu demônio, seu karma, somos a mesma coisa, sou a personificação de sua raiva. Basicamente sou uma entidade provida de poderes, presa em você e parece que de alguma forma você consegue usar meus poderes, mesmo que só uma pequena parte. Existe mais nove iguais a mim dentro de você. Cada um com sua diferença, mas isso é muito complexo para que entenda agora, só precisa saber disso, eu sou você, estou dentro do seu sangue, pensamentos e músculos. 


- Me fala o que você quer? 


A Voz interior respondeu: eu quero a morte de todos os humanos, odeio vocês, tem um mundo lindo e se matam, escravizam e fazem guerra destruindo todos e tudo a sua volta.


-Como você veio parar em mim? 


-Eu não lembro, eu não sei, isso é confuso. Acho que por eu ser a primeira liberação, minhas memórias foram apagadas. Olha muleque insolente, eu já falei muito e até agora você não disse obrigado, deveria ter deixado você morrer. 


-Obrigado! 


Então a voz voltou a ficar naquele tom baixo que eu não conseguia entender, só sentia que estava ali. Aos poucos nossa tribo virou alvo de vários ataques de brancos e nós resistimos, eu lutava e me sentia cada vez mais seguro com o meu eu interior, conseguimos nos manter, aceitamos vários indígenas refugiados e negros, logo eu e nossa tribo ganhamos fama. A tribo era um lugar seguro e de refúgio. E eu fiquei conhecido como O Capoeira, matador de brancos.

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