Além da casa cinza - Celeiro Cultural

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domingo, 18 de abril de 2021

Além da casa cinza



Por Maria José Lima-Sabbag



“Tu poderás!”

Jonh Steinbech


Nesse momento sombrio que estamos vivendo, distante fisicamente até das pessoas que amamos, resta-nos apreciar as coisas mais simples da vida, como ler um bom livro, passar horas com animalzinho de estimação, brincar de viver, amar as pessoas “como se não houvesse amanhã”. Daí escolhemos o caminho, tentamos todos os dias percorrê-lo com sabedoria e lutamos para vencer as adversidades impostas pela vida. É, podemos sempre acreditar que vamos resistir, se essa for a nossa escolha. 


Ainda criança já fazia minhas escolhas. Rompi janelas, casas e muros para enxergar o mundo com “meus” olhos e ouvir narrativas fabulosas e versos de pessoas tão incríveis que traziam esperança para meu coração aflito na infância. 


Tudo que lembro é que eu sempre fui fascinada pelo mundo das letras, das palavras, dos livros. Quando ainda era criança, ouvia histórias contadas por uma vizinha, a Biruta. Era assim que era apelidada pelas pessoas do meu bairro. Nunca soube o seu verdadeiro nome. O nome de uma mulher - quieta, amorosa e fabulosa - trancada em sua casa cor de cinza. 


Ela tinha uma paralisia facial, cabelos meio amarelados e brancos, presos com um coque bem simples e caminhava capengando. As pessoas dali diziam que era louca. Havia aquelas também que a chamavam de bruxa. E todas as mães ameaçam os filhos desobedientes, dizendo que iriam mandá-los para Biruta. As crianças de meu bairro morriam de medo. E como sentiam medo! Eu também morria de medo dela.


Lembro-me de que um dia, eu estava fugindo de uma pessoa muito má. “Quem era? Essa é uma outra história”. Como eu já dissera, eu estava fugindo, muito desesperada e, talvez, por impulso, medo, entrei na casa cinzenta e fiquei muito surpresa. A casinha por dentro era clarinha, não tenho certeza, acredito que havia uma parede rosa. E lá fiquei escondida. A Biruta fez uma sopa de batata doce. Nunca esquecerei aquela gostosura, servida por uma mulher estranha, que era tão calma, doce, amorosa. Ao cair da tarde, voltei para minha casa. Minha vontade era ficar lá para sempre. Sempre de criança é a vida toda. 


A partir desse dia, quando eu conseguia sair de minha casa sozinha, corria para a casa da Biruta para comer suas gostosuras, mas havia naquela mulher algo muito mais especial. Ela sabia contar histórias. Ah! Não me lembro das histórias, só sei que eram fascinantes. Mas, chegava sempre o momento de voltar para a minha vida cinzenta. 


Eu voltava feliz com as encantadoras histórias da Biruta, que iluminavam minhas noites escuras e meus dias sombrios. Ninguém nunca soube que lá era meu “jardim secreto”. Eu nem sabia que as coisas começariam a mudar com a aquela figura tão estranha, tão simples, que as pessoas tinham tanto medo. Hoje eu vejo como eram intolerantes e preconceituosas.


Naquele mesmo tempo, meu avô Domingo, também passava horas comigo. Era um homem com um coração puro, amoroso, sorridente, mesmo nos momentos de tristeza, ele sorria - meio sem graça, às vezes. O importante é que sorria muito. Aprendi a ser alegre com ele, com certeza! Quando estávamos sozinhos sempre conversava comigo. Não lembro muito, só sei que ele conversava sobre a vida. Meu querido Domingo me fez decorar uma trova que nunca esqueci: “Quem tem: uma cabeça que pensa, um coração para amar, tem riqueza garantida, tem tudo que desejar”. Ele sempre me alertava para eu nunca deixar de estudar! 


A vida turbulenta ficava amena com essas pessoas tão especiais.


Um dia, dei adeus ao meu amado avô e à inesquecível Biruta. Como eu queria lembrar o nome dela. Mas, não importa, Biruta é uma palavra gostosa e doce para mim. 


Fui morar num lugar tão, tão distante. Não muito alegre porque lá não estavam as duas pessoas que eu amava, que tornavam meus dias alegres com suas histórias. No entanto, não se pode subestimar a capacidade das crianças de criarem as suas próprias histórias. Eu criava contos mirabolantes, até quando olhava para as nuvens eu fantasiava. 


O grande dia chegou! Comecei a frequentar a escola pela primeira vez. Entrei atrasada naquele ano letivo, meus documentos não chegavam para meu pai fazer a minha matrícula. Como eu queria estudar! Tinha certeza que me reencontraria com as histórias contadas pelos adultos que eu amava. Enfim, entrei na escola. Eu era nova naquela cidade, naquele colégio: sentia-me um peixe fora d’água. Como é difícil para uma criança sentir-se estranha e desconfortável em um lugar.


Sabe o que eu achei mais estranho? Minha professora não sabia contar histórias. Como assim, uma professora que não contava história!  Mas, ela me deu um livro. Que delícia!!! O nome do livro era “Caminho Suave”. Achei aquele livro muito chato! Não tinha histórias. Que tristeza!!! Havia nele arrepiantes exercícios de coordenação motora fina. Hoje eu sei o nome daquela tortura: “Pré-requisitos para Alfabetização”. Que lástima para uma criança que conhecia histórias fascinantes!


Os dias passaram-se e eu ficava viajando na sala de aula, envolvida com meus pensamentos, nas belas histórias da Biruta e nos versos que meu avô ensinava. A professora não compreendia, achava que eu tinha problemas de aprendizagem. Fui rotulada para meu infortúnio!


Nunca esqueci que um dia eu precisava fazer um conjunto com as pessoas que faziam parte da minha família. Eu fiz! Coloquei meu pai e meus irmãos com minha madrasta dentro do conjunto, eu e minha irmã fora dele. Pra quê? Só sei que só confirmou minhas dificuldades de aprender! A professora não compreendeu que não me sentia parte da família. Que loucura aquilo! Tinha certeza de que reprovaria naquele ano. Todavia, para minha não desgraça, a professora afastou-se e foi substituída por uma moça tão meiga, tão linda, tão feliz e inexperiente. Também não me lembro do seu nome. Vou chamá-la de Bela, para fazer jus às características mencionadas ela era tão linda por dentro e por fora. Como eu amava aquela professora, que, logo no primeiro dia, contou uma história. Para minha alegria e de todos, ela contou uma história encantadora. Os dias passaram-se felizes, minha escola ficou muito legal! Aprendi a ler e escrever rapidinho com a inexperiente professora. 


Lembro-me de que depois de um tempo, meu pai mudou de cidade. Eu disse “meu pai mudou de cidade”, porque, nós crianças, simplesmente acompanhávamos os adultos. Como é difícil, muitas vezes, a vida na infância. Eis que uma nova vida irrompe! Tive que recomeçar tudo de novo. Eu sempre achava que tudo daria certo, se eu continuasse estudando.

 

Como eu era criança, achei que gente grande levaria tudo que precisaria para fazer a matrícula numa escola, mas a tristeza tomou conta do meu coração mais uma vez. Não podia estudar! Não tinha a transferência da escola. Que dureza! Ainda assim, não perdia a fé e a esperança. Eu era persistente, ia na escola e tentava explicar que queria estudar. Era em vão, até que chegou o bendito documento, mas disseram que eu tinha perdido o ano letivo. Que lástima! Fiquei na frente da escola, dias e dias. 


Uma manhã aconteceu algo diferente. Um professor parou para conversar queria saber porque eu ficava ali. Falei que eu queria estudar. “Simples assim!”. Ele me levou para escola. Arrumou um caderno e eu voltei a sonhar! 


Outros anos passaram-se e fui morar na região Norte do país (Rondônia). Minha nossa! Meu pai parecia cigano! Lá realmente eu estava distante de tudo! Naquela época, a energia da cidade era movida a motor. Eu estava no sexto ano. Meu pai sempre dizia que estudaria até o oitavo, pois o segundo grau era no período da noite. Ele dizia repetidas vezes “filha minha, não estuda à noite!”. Pensando nessa possibilidade de estudar apenas até os anos finais do ensino fundamental, comecei a curtir ainda mais minhas aulas, aproveitava o máximo. Dificuldades não faltavam! Mas sempre havia um anjo de plantão para me socorrer. Essa certeza era inabalável.


O nome da escola era Urupa, eu acho. Ficava perto de um rio. Ah... se esse rio falasse, nós, crianças e adolescentes, estaríamos ferrados. Naquela escola, encontrei um professor incrivelmente maravilhoso de Língua Portuguesa que mudou minha vida. Como é bom encontrar alguém que torna nossa vida mais interessante e mais feliz! Aprendi a gostar de ler, recitar e escrever com prazer. Ele era uma figura, quando cantávamos, enfileirados, o Hino Nacional, colocava a mão no coração e as lágrimas rolavam. Meus colegas se divertiam com aquela cena! Eu, sempre muito sensível, achava o máximo um homem daquele tamanho - tão inteligente, poderoso, divertido – chorando. Eu aprendi que todos nós sofremos e que a dor do outro pode não doer em mim assim como a minha pode não provocar nada no outro também, porém, por algum motivo, sofremos! 


O tempo passava e eu aproveitava tudo! Estava na época de curtir tudo. Minha sede maior era de conhecimento, era de encontrar pessoas inteligentes, espertas. E a cada dia minha vida ficava melhor, mais incrível. Todavia, eu já travava uma batalha contra o tempo. Queria muito completar 18 anos, poderia ser livre e dona da minha vida. Mas, eu só tinha 15 anos. 


Naquele tempo, as famílias acreditavam que mulheres tinham que se casar bem cedo. Eu não queria casar. Eu queria estudar!!! Era meu sonho: continuar o Ensino Médio. Todavia, naquele lugar não seria possível. O Ney Matogrosso já anunciara que “os ventos do Norte não movem moinhos”. Precisava novamente partir, dessa vez sozinha.


Consegui voltar para o estado de São Paulo. Sofri muito! Estudei muito! Li muito! Conheci escritores que mudaram minha vida, em especial, o mestre Paulo Freire, Mario Quintana, Rubem Alves, Clarice Lispector e John Steinbeck. O escritor estadunidense foi apresentado por minha amiga leitora Edilva. Sempre diante de um obstáculo eu ouvia a voz do John sussurrando: “Tu poderás”!


Aconteceram coisas incríveis que mudaram minha vida. Só sei dizer que “rompi tratados e traí os mitos” da minha família. Eu queria estudar! Este desejo era mais forte do que tudo. Era minha razão de continuar vivendo, aprendendo, sonhando! Segui minha vida acadêmica, concluí, entre outros, o Centro Específico e Aperfeiçoamento do Magistério (o mais significativo de todos), o curso de Letras e Mestrado em Estudo Literários. 


Perpassando por caminhos acadêmicos, encontrei pessoas lindas, amorosas, empáticas, brilhantes: amigas e amigos que fazem parte da minha trajetória de vida. Conheci obras admiráveis, andei por mundos fascinantes, desconhecidos. Eis que a vida se tornou um grande vazio para sempre, que até hoje não consegui preencher. Ainda bem! No vazio cabe tudo o que podemos imaginar.


A única certeza de que tenho é que tudo começou naquela casa aparamente triste, nem branca e nem preta. Eu sequer imaginava que minha história poderia ser um romance, repleto de escritores fabulosos e de uma galera extraordinária, como a Biruta. 


Ah! Eu também, Carlos Drummond de Andrade, não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. 



Maria José Lima-Sabbag estudou Letras e Mestrado em Estudos Literários na UFMS. É formada em Pedagogia e Especialista em Coordenação Pedagógica pela UFSCar. Atuou na Educação Infantil, como professora, formadora e coordenadora pedagógica. Ministrou aulas na Faisa/Faciluz nos cursos de Pedagogia e Direito. No Momento, atua como professora de Língua Portuguesa no Colégio Nep-Objetivo de Ilha Solteira.


13 comentários:

  1. Nossa, minha querida! Voltei no tempo junto contigo! Ainda bem que ainda existem muitas "Birutas" por aí! Eu também conheço algumas! Quer saber? Penso que acabei de conhecer mais uma! Beijão!

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    1. Professor Edilson, que delícia fazer uma viagem no tempo e encontrar com as "Birutas" que nos inspirou! Muito grata! 💖

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  2. Nossa!!!!parabéns .. de arrepiar.... amei.

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  3. Lindo texto em fantasia e realidade! Parabéns e escreva mais... bjos 👏😘

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    1. Muito obrigada! Sabe que amei passar dias fazendo "peraltagens" com as palavras.

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  4. Jo Querida, que narrativa mais linda!!!! Amei-a!!! Biruta, Domigo, Bela, entre tantas outras mediações incríveis colaboraram para que tornasse fato "Tu poderás!". Emocionante poder acompanhar seu percurso, tanto pelo conteúdo como pela poesia presente na sua forma de escrever, narrar. Parabéns, minha Querida!!! Gratidão por este maravilhoso Presente!!! 🙏🏼🥰😘❤️🌻

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  5. Que mensagem mais linda!!! Muito obrigada!🤩

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  6. Jô maravilhosa!!! Lindaaa sua narrativa! Cheia de memórias que nos encanta e inspira!!! Parabéns!!!!

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  7. Jô, que incrível seu texto!!! Parte dessa história vc já tinha me contado, mas agora por meio do texto ficou ainda mais lindo. Amiga talentosa com as letras e de coração admirável! Parabéns!!!

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  8. A pandemia revelou teu talento escondido. Agora é dar vazão p o teu talento. Arrasou!

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