O Analfabeto - Por Vilma Duarte - Celeiro Cultural

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domingo, 7 de fevereiro de 2021

O Analfabeto - Por Vilma Duarte

Por Vilma Duarte

Analfabeta de pai e mãe.


Quantas vezes já ouvimos essa expressão?


Eu, nascida e crescida numa fazenda no interior de Minas Gerais, onde morei até os nove anos de vida, ainda tenho na memória, a lembrança daquele calendário de parede, com datas, nomes dos meses e algumas frases, cujas folhas eram arrancadas, diariamente. Ele ficava no alto para que as crianças não alcançassem. Minha mãe se encarregava da tarefa. Provida de muita curiosidade desde pequena, volta e meia perguntava para minha mãe: O que está escrito aí? E ela respondia os dias e o mês, e eu fazia outra pergunta: e por que eu não posso arrancar uma folhinha? Ela desviava o olhar e dizia:  porque senão eu me perco.


Quando fui estudar na escola da fazenda vizinha, e aprendi a soletrar, chegava em casa e ia direto para o calendário soletrar, o dia e o mês, aos poucos ia soletrando as frases, que eram mensagens bíblicas. Naquela casa não tinha livros, e o calendário era minha única fonte de pesquisa. Nestes momentos minha mãe parava ao meu lado e prestava muito atenção no que eu estava falando. E muitas vezes a ouvi dizer para meu pai que eu já estava sabendo “lê”.


Meu pai, homem de expressão fechada e de pouca abertura para diálogo, quase nunca respondia, apenas balançava a cabeça num sinal de aprovação.


Antes de completar nove anos, meu pai faleceu, e fomos morar na cidade. 


Na cidade fomos fazer a matrícula, e quando pediram pra minha mãe assinar, ela falou que não sabia, e então, fui apresentada a uma almofada, encharcada de tinta preta, onde minha mãe molhou o dedo e colocou num espaço marcado. Minha mãe era analfabeta. E neste dia me contou que meu pai também o era. 


Eu era analfabeta de pai e mãe. Expressão que usada para qualificar quem não sabe ler e nem escrever.


Em todos os lugares que ia e minha mãe precisava sujar o dedo naquela almofada, estranhamente sentia um aperto no coração. E muita vezes eu corria pra limpar o seu dedo. Como se aquilo fosse uma “marca” que não deveria ficar ali.


A medida que fui dominando as palavras, lia para minha mãe, nas poucas horas de descanso que lhe sobrava entre buscar lenha, fazer sabão, lavar e passar roupas para muitas famílias, fonte de renda para sustentar os cinco filhos menores, outros cinco já estavam na labuta, em outras cidades.


Nestes momentos, comecei a entender, que meus pais não sabia ler e nem escrever, mas faziam contas de “cabeça”, como ninguém minha mãe conhecia as notas de dinheiro e nunca errou num troco para uma freguesa. Meu pai era o “administrador” da fazenda e cabia a ele fazer compras, zelar pelos animais e pagar os “peões” que vinham para trabalhar nas colheitas. 


Aos poucos fui tentando ensinar minha mãe a escrever pelo menos o nome. Que ela aprendeu em letras maiúsculas e garrafais. E neste dia, ela me disse, parece que saiu uma cortina de cima dos meus olhos...


Até hoje, ainda fico imaginando que aquela cortina impedia meus pais de fazer atividades consideradas corriqueiras por outras famílias, como identificar os rótulos e os preços dos produtos. E imagino quão difícil seria se tivesse que pegar um ônibus?  E, simplesmente, andar pelas ruas sem saber o que dizem as placas de trânsito. E não saber o que diz a bula dos remédios?


Diferentemente dos analfabetos funcionais, que tem preguiça até de soletrar,  e  quando o fazem, não compreendem o que leu, ouviu, ou soletrou, que passam longe do livros, e sabem muito mais do que “ouviu dizer” ou compartilhou; meus pais, não sabiam ler e nem escrever, mas interpretavam melhor que ninguém, cada sinal, cada figura, cada frase.


Depois da descoberta do analfabetismo de pai e mãe, achava que aquele calendário na parede não fazia muito sentido.


Hoje, eu sei que aquele calendário fazia todo sentido.


11 comentários:

  1. Texto maravilhoso....retratou muito bem a realidade que você viveu. .

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  2. Voltei no tempo! Me vi na escola da fazenda, sendo alfabetizada aos nove anos, não por negligência de meus pais, mas sim por falta de oportunidade nos idos dos anos sessenta.

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  3. E o passado não se cansa de passar do presente até o futuro... e sem se cansar.

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  4. Grande verdade...ele sempre baila conosco .

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  5. Amei!!!! Admiro você ainda mais! 😍

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  6. Obrigada JÔ. Também te admiro muitooooo

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