Antropofagia do Silêncio: o ano em que o Carnaval se calou - por Ariane Daruichi - Celeiro Cultural

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domingo, 21 de fevereiro de 2021

Antropofagia do Silêncio: o ano em que o Carnaval se calou - por Ariane Daruichi

Por Ariane Daruichi


Todas as coisas são as mesmas e estão em seus lugares. Mas as mãos da costureira, sem nenhum movimento que lhe tomasse a atenção do corpo, não coseram os brilhosos paetês. Há no silêncio do não tear, a desconsolação.


As inscrições do silente são ruínas do inventário das cores. E já faz muito, é Quarta-Feira de Cinzas. 


A festa da carne é agora a antropofagia do silêncio e do resguardo. A antiarte da folia guardou para si, na geografia afetiva dos pensamentos, o ponteio dos mambembes e a euforia dos cosmopolitas, arriou os estandartes das cidades libertariamente possíveis. Calou estampidos. Enquanto escrevo, quero deixar grafado que ressoa em minha cabeça um samba de maracatu, mas ecoa o estrondo: não!  Este é o ano em que a carnis valles não aconteceu.


As insistentes purpurinas são atlas temporais, perpassam as cinzas da quarta-feira e desenham os ciclos. Lembram que a memória é também espacial: o que é que se aprende das folias vividas? 


Carnavais são baluartes dos gracejos, do inebrio e do estonteio. São formas de resistência dos homens e mulheres do chão levantados .


Fiquei pensando que se é o carnaval o grandioso ato de autogerir as ruas do país, de participar da vida das cidades, de colorir tristezas do ano que passou e tudo isso na redoma de divertidas fantasias, não é o carnaval outra coisa senão uma ode ao direito de contar histórias. E o que eu tenho a contar é que são poucos os eventos do firmamento que paralisam os segundos como a gira de uma porta-bandeiras!


Todas as coisas são as mesmas e estão em seus lugares. Mas haverá de passar, porque nada se conserva eternamente, como já nos disse o poeta portelense .


E, daqui, sem revidar, sigo me guardando para quando o carnaval chegar.



1. Marília Garcia em “Parque das ruínas”(Editora Luna Parque) e “O canto da Cotovia” (Blog da Companhia).

2. Direito como Liberdade: O Direito Achado na Rua Experiências Populares Emancipatórias de Criação do Direito.

3. Paulinho da Viola em “Nas Ondas da Noite”.

Foto: Carnaval de Olinda,  2021. Foto de Ivanildo Machado. Imagem retirada da Internet



Ariane Daruichi é  advogada, especialista em direito urbanístico e ambiental. Defensora de Direitos Culturais.


2 comentários:

  1. Parabéns....uma bela reflexão sobre uma das festas mais populares do Brasil. Maria Ivanilda

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  2. Texto sensível que propõe uma pertinente reflexão sobre o Carnaval, a festa popular mais importante do nosso país. Parabéns!

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