"Ninguém vai se atrever" - Antonio Lázaro Sant'ana - Celeiro Cultural

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terça-feira, 18 de junho de 2019

"Ninguém vai se atrever" - Antonio Lázaro Sant'ana


Já não vamos torrar café. Cacilda tá mudando e não temos onde emprestar o torrador. Hoje apenas remendaremos a roupa do filho da vizinha. Aqui do portão, vejo os cacarecos da Cacilda, tão exibida, cabelos amarelos, quase gema de ovo, só pode ser tingido! Diz que não. O vento forte, as bananeiras do quintal ficam com as folhas em tirinhas e estalam, palmas desconjuntadas de moleque arteiro. Pensamento vento que sempre passa e nunca sossega, e remexe fundo, busca as rapas queimadas, amargas. O homem que esmagou a perna tá sentado no murinho defronte da casa dele. Parece que fuma, fumaças tristes. Ainda tenho que lavar a louça. Daqui a pouco chove, desaparece os ruídos das crianças na rua e nos quintais. A dança da antena da televisão é bastante desajeitada, como a do Gilberto. A Marli quer brincar com o jogo de café que ganhou no natal retrasado. A mãe jamais permitiu, tá novinho e inútil. Nunca tive nada parecido, algumas bonecas de plástico duro e só. Marli não consegue progredir na escola, sempre repete. Puseram em classe especial, agora tá indo melhor, reconhece as letras na TV, quase todas, mas não sabe juntar. Bomba só tomei no segundo ano, com a D. Inês. Ela dava croques quando a gente conversava ou respondia errado ou ainda quando estava azeda. Eu manjava logo, ela nem espalhava o giz pela lousa: catava um e escrevia “aritmética”. De medo tinha vez que eu confundia os cadernos, saia botando números e contas no de língua portuguesa (costumava olhar desconfiada para a língua que o pai trazia do açougue, tão ruim). Sempre que ela vinha nervosa, começava por matemática e era fácil meter aqueles dedos ossudos nos cocurutos. Nunca eu passava direto também, só com exame e segunda-época. Na vizinha o aparelho de som tá ligado alto, uma música estranha, “olhar que se descortina”, olhar que diz...gosto de olhos assim. Daqui a pouco chove, como ontem, antes de ontem e atrás de anteontem. Toda tarde. O filho da vizinha que atiçou a Marli para pedir o brinquedo. Gilberto é mais bonito. Gilberto me contou que o cara barrigudo vende maconha, o Zé Zebu. O pai havia dado a entender, mas do jeitão dele e não peguei o troço; diz para nos coçarmos de curiosidade e quando perguntamos, refuga em braveza. Não sei porque, mas o homem até parece um pouco um touro. Não posso continuar plantada no portão. Ninguém me olha. Também com essa barriga, tão grande, parece que tem um bezerro dentro. Gilberto tem olhos mansos de boi. O sol traz a quentura de quem trespassou a chuva por esses confins do céu; tem umidade. Sinto muita fome, mas tenho vergonha de comer toda vontade. Dá muita despesa em casa, o pai reclama. No natal foi bom pra caramba, tanta carne! Veio um mundaréu de parentes, mas ninguém reparou em mim, nem lembraram. Beberam bastante cerveja e porradinha, todos dançaram. A mãe sorria, lenço novo na cabeça, se esquecendo que tá ficando careca. A sonata, que arrumamos emprestada, foi uma beleza, embora, um pouco fanhosa, lembrasse o Nhenha. No segundo ano ele também repetiu. Faziam gozação comigo, me botando de par com o boboca. Eu tremia como vara verde, de ódio. O apetite perdia no recreio, quase nem tomava sopa, mais tarde a fome voltava, doída lá dentro da barriga. Agora, de vez em quando, sinto uma pontada. O pai não devia me xingar assim, me deixar debaixo de cú de cachorro. Já me chamaram para arrumar a cozinha. Minhas pernas estão se pintando veias, crescem como raízes fininhas...deve ser o peso. A Marli veio espionar o que me entretém na rua. Em frente à casa do Zé Zebu um carrinho com os varais erguidos, um cachorro na rotina de farejar; barulho de carro na “Josina”; uma moça de cabelo armado, bundão enorme, passando; a vizinha que chega com um galho de arruda na mão e me cumprimenta. Nada pra se contar. A surpresa, arregalada em susto, é uma das poucas coisas que me anima, me convence da fortidão da vida que existe em mim. Existem, né?

E justo agora que mais queria ficar longe da língua da mãe e do pai! Sem poder abandonar a casa como o Tavinho, sem muitas explicações, chegar o dedo bem no rumo dos olhos do pai, de seus óculos, e dizer “eu-me-viro”, foda-se o resto. Descarar a mãe quando proseia com a vizinha, esta que nem mudara direito e já escavava segredos, brilhantes pepitas de escândalos. Todo dia alguém na vizinhança briga, destramela a boca mesmo, os outros, cínicos, ficam de butuca. Depois conversam na beira do muro, na calçada de vassoura na mão. Bocas vivazes à procura de movimentos suspeitos. Tinham também a mania de chamar a polícia por qualquer motivo, sabia de cor o número da delegacia. O pai e a mãe agiam de maneira diferente, mas produziam o mesmo efeito da polícia, um sobressalto mesclado à angústia, um medo de ser humano e ter dor. O Zé Zebu sempre vinha tomar cerveja ali na frente, a garrafa no muro, observava a rua, meticuloso. De noite invertia, ele trancava-se em casa, vinham os carros, paravam um instante, alguém buscava um pacotinho e partia. Carros bonitos e motos impacientes. Uns paravam na esquina, disfarçavam tanto no andar que se tornavam mais suspeitos. Mas queria descarar a mãe. Gilberto não havia enganado porríssima nenhuma ou, pelo menos, tinha sido um enganar só de boca pra fora, de conversa, mas sabia, já se conhece as fatalidades. Puro fingimento, só na horinha os protestos – não porque não e não, meu pai me mata, me corta uma orelha, me bate com fio de ferro de passar roupa. Gostava de passear com a moto do Gilberto, sentar atrás e agarrá-lo, apertar bastante, parecer um corpo só, inclusive com a moto, um corpo veloz pedindo asas pro mundo. Desgraça aparece embolada, justo agora com a dispensa do emprego, em casa a mãe fala muito, palavras que são beliscões por dentro. Tinha que me benzer, o Zé Zebu foi chefe de terreiro de umbanda ou saravá, mesa-branca não era, sempre viveu mexendo com coisas esquisitas, encrencas. Vende maconha, mas recebe uns soldados, volta e meia, e com amizade refinada, desta de bandeja de café na sala. Não dava pra entender. Gilberto fumou um, riu demais, queria inventar sem-vergonhice grossa, mas que não contasse, trancasse o bico como fizera com os encontros, nada nem para a melhor amiga. Ainda passa na rua, dá uma reduzida na moto e o capacete vira-se pro corredor, porém poucas vezes. Sem ir na escola agora, o lugar de encontro também se perdera. Logo soube que o Gilberto era casado, uma mulherzinha magrinha que um dia topara no supermercado, comprando pêssego em calda e modess para os últimos dias. A sacanagem, entretanto, só veio depois, quando ele disse ter alergia à camisinha, mas que tomava um treco de anticoncepcional de homem, e qualquer preocupação se acabou. Assim sempre, bastava se topar, cair a pestana de um em cima do outro. Os olhos do Gilberto eram quase verdes, o casaco de couro lhe concedia elegância. Desejava andar com ele pelo calçadão, de braços dados, sem destino, espiando vitrines, as fontes com luzes coloridas, o frio do ventinho misturado a respingos, bom para se aconchegar mais. A amiga da Cacilda, a Miroca, fugira com um cara, uma semana, depois retornara pra casa com as mesmas pernas finas e jeito cansado de caminhar, mas sem cabaço, disso todo mundo sabia. E continua lisinha, nenhuma barriga. Se o pai não tivesse cacarejado tanto, talvez Gilberto resolvesse assumir o feito. Deve ter se emputificado com o escândalo. Também a mulherzinha dele com ataques dos nervos, três semanas de separação, só depois tudo bem, o que se podia fazer, né? Com a barriga não podia mais trabalhar de empregada; pra tratar de criança aquela mixaria de salário nem dava mesmo pra começar, e como arrumar outro emprego? Diferente do Tavinho, corpo leve, pensão paga e ainda um tiquinho de grana pro cigarro e pro resto. Vontade de botar algodão no ouvido, sumir pra longe, pra não fazer como a De-Lurdes, se dependurar na terça da varanda e encher o rosto de sangue preto, a língua enorme quase lambendo o peito, vidro nos olhos. Naquela casa do sítio que tinha um poço pra nadar na baixada, mato de sombra grossa e cheiro fresco. E agora o pai trouxe uma corda, bateu outra vez no rosto de uma filha e lhe cuspiu no umbigo – na cara de quem ainda não nasceu. Ele pediu licença do serviço uns dias, formou reboliço maior ainda e abriu mais um pouco a úlcera do estômago. Mas no natal todos estavam contentes, a sonata tocou até esquentar, o dia inteiro. O Zé Zebu sondava a rua indiferente, comia castanhas e bebia cervejas, quando virava de costas aparecia o rego cabeludo do cú, indecente. Talvez tenha sido mal olhado, só ele tinha visto antes. Perdera a inclinação de sair agora, ia apenas nas compras na venda, nunca no açougue do pai da mulherzinha dos pêssegos em calda. O homem da perna moída tem expressão bondosa, com tristeza definitiva. Guardava o mesmo olhar pra barriga pronunciada, o avesso da amputação – o ganho de um pedaço indesejável. Mas é capaz que ele não ponha aldrin no caneco de coar café, quase certeza que não fará isso nunca. Capaz que ninguém dessa rua vai atrever.

Antonio Lázaro Sant'ana
(texto do Sarau dos Amigos de 14/06/2019)














* Este conto foi um dos vencedores do I Concurso de Contos da Prefeitura de São José do Rio Preto, em 1984. Foi publicado em 3 de outubro do mesmo ano, em um jornal da época (Participação).

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